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Juros do consignado privado sobem para 56,7% ao ano: veja o que muda pra quem tem dívida no cartão

Mãos segurando carteira de trabalho azul com cartão de crédito e calculadora sobre mesa, ilustrando a comparação entre consignado e dívida do cartão.

Os juros do consignado privado sobem: a taxa média subiu de 53,3% para 56,7% ao ano, segundo um estudo divulgado nesta quarta-feira (19), com base em levantamento da TransUnion e da consultoria Deloitte junto ao Banco Central, apresentado em evento no dia 14 de agosto. O consignado privado é a linha de crédito com desconto automático na folha de pagamento, voltada a quem tem carteira assinada.

No mesmo período, o prazo médio dos contratos caiu de 40 para 35 meses. E o saldo total emprestado na modalidade somou R$113,3 bilhões em junho, segundo dados oficiais do Banco Central, um salto de 143% em relação ao mesmo mês do ano passado. Hoje, 10 milhões de trabalhadores já contrataram o consignado privado, de um total de 40 milhões de empregados com carteira assinada no país. Quase 150 instituições financeiras já estão cadastradas para oferecer a linha.

Juros do consignado privado sobem: o que muda pra quem pensa em trocar a dívida do cartão

O motivo de tanta gente recorrer ao consignado privado é simples: o desconto sai direto da folha, o que costuma deixar o juro bem mais baixo do que o cobrado no rotativo do cartão de crédito. É por isso que a linha virou destino comum para quem quer trocar uma dívida cara por outra mais barata. O problema é que essa conta ficou pior nos últimos meses, e quem for fazer essa troca agora entra num crédito mais caro e mais curto do que quem fez a mesma operação há um ano.

Pegue o tíquete médio de quem ganha entre 3 e 5 salários mínimos hoje (a faixa de renda mais próxima de quem ganha R$5.000 a R$8.000 por mês): R$13.741, segundo o levantamento. Emprestar esse valor agora significa pagar juro de 56,7% ao ano dividido em até 35 meses. Há um ano, o mesmo valor seria dividido em até 40 meses, a um juro de 53,3% ao ano. Duas coisas empurram a parcela mensal pra cima ao mesmo tempo: juro maior sobre o saldo devedor e menos meses pra diluir o valor total emprestado. O resultado prático é que o consignado deixou de ser a barganha que era.

Vale um adendo de honestidade: as fontes não deixam claro se esse percentual de 56,7% ao ano é só o juro nominal do contrato ou já inclui o CET, o custo efetivo total, que soma ao juro os tributos e o seguro embutidos na operação. Se for só o nominal, o custo real de quem contrata pode ser ainda maior do que o número sugere.

Quem ganha acima de 5 salários mínimos (hoje R$1.621, o que dá acima de R$8.105) é justamente a fatia menor do mercado: só 17,7% das operações do consignado privado vêm dessa faixa, segundo o estudo. A maior concentração está em quem ganha até 2 salários mínimos (40,9% das operações somadas). Isso não muda a lógica pra quem ganha mais: se a ideia é usar o consignado pra reduzir o custo de uma dívida de cartão, o cálculo das condições atuais (juro maior, prazo menor) precisa entrar na conta antes de assinar, independentemente da faixa de renda.

A taxa de inadimplência geral da modalidade está em 8,6%, mas varia bastante conforme o porte da empresa em que a pessoa trabalha: 10% nas microempresas, 8,3% nas pequenas, 6,4% nas médias e apenas 2% nas grandes corporações. Quem trabalha numa empresa pequena ou média, que responde junto com as micro por quase 75% das solicitações de crédito consignado, está exposto a um risco de inadimplência bem maior do que a média sugere à primeira vista, porque o vínculo empregatício nesse porte de empresa costuma ser mais instável.

O que ainda vale acompanhar

Em abril deste ano, o Comitê Gestor das Operações de Crédito Consignado, colegiado do Ministério do Trabalho vinculado ao programa, já havia criado uma regra para conter juros considerados abusivos no consignado privado: instituições que cobrassem taxas muito acima da média do mercado passaram a poder ser notificadas e até suspensas do programa. Mesmo com a regra em vigor, a taxa média seguiu subindo nos meses seguintes, o que é um sinal de que o teto de referência não está segurando o custo do crédito na prática.

Três pontos concretos pra ficar de olho daqui pra frente:

  • A próxima divulgação mensal do Banco Central sobre juro e saldo do consignado privado, que vai mostrar se a alta de agosto é tendência ou só um pico pontual do período.
  • A fiscalização da regra de abril de 2026 contra juros muito acima da média, já que ela não impediu a taxa de continuar subindo até aqui.
  • A evolução da taxa de inadimplência, hoje em 8,6%: se ela continuar subindo, tende a puxar as condições do crédito pra pior também pra quem paga em dia.

Conteúdo educativo: este texto não é recomendação de investimento nem substitui orientação financeira individualizada. Avalie sua situação antes de qualquer decisão.

O dinheiro já sabe para onde vai. A questão é se foi você quem decidiu.

Kim Planeja

Dev de dia, aprendiz de finanças na vida real. Kim Planeja viveu por anos no ciclo do mês que vem e decidiu mudar isso — uma planilha, um hábito e um artigo de cada vez.