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Galípolo alerta endividamento cartão de crédito: fatura já consome 54% da renda

Fatura de cartão de crédito com cartão físico sobre mesa de madeira, linha do total desfocada, iluminação dramática com destaque violeta.
Fatura de cartão de crédito com cartão físico sobre mesa de madeira, linha do total desfocada, iluminação dramática com destaque violeta.
A fatura de cartão de crédito já consome 54% da renda média das famílias brasileiras.

Galípolo alerta endividamento cartão de crédito nesta segunda-feira (24): o presidente do Banco Central mostrou, durante o Febraban Tech 2026, em São Paulo, que o crédito caro e sem garantia segue avançando entre as famílias brasileiras. Os dados colocam o cartão de crédito no centro do problema: o comprometimento médio da renda das famílias com a fatura do cartão saltou de 38,5% para 54%, e os juros do rotativo já chegam a 15,1% ao mês.

Segundo Galípolo, dos 96 milhões de usuários de cartão de crédito no país, 52,8 milhões carregam alguma dívida no rotativo ou em parcelamentos com juros. A inadimplência dessa modalidade passou de 55% para 64%. "Não dá para ficar contente porque o crédito cresceu e depois reclamar que o endividamento cresceu", disse o presidente do BC.

O alerta chama atenção porque o cenário econômico deveria, em tese, favorecer as famílias. Em junho, o desemprego caiu para 5,4%, o menor nível para o período, e em maio a renda disponível bateu recorde de R$822 bilhões. Mesmo assim, o endividamento não recuou.

Galípolo alerta endividamento cartão de crédito: o que muda no seu bolso

Nada muda de forma automática hoje. O BC não anunciou uma medida em vigor, só um diagnóstico e a promessa de novas regras para os bancos, ainda sem prazo. Mas os números que Galípolo apresentou funcionam como retrato de um hábito comum para quem ganha entre R$5 mil e R$15 mil por mês: o cartão deixou de ser reserva para emergência e virou parte fixa do orçamento, a extensão do salário que cobre o que o salário sozinho não cobriu.

Vale entender o tamanho real do custo de quem usa o rotativo, mesmo que só de vez em quando. Juros de 15,1% ao mês, repetidos mês a mês, viram cerca de 443% ao ano (1,151 multiplicado por ele mesmo 12 vezes).

Numa fatura de R$1.500 que fica três meses seguidos no rotativo, sem nenhuma compra nova, a conta é R$1.500 x 1,151 x 1,151 x 1,151, e o saldo devedor passa para cerca de R$2.290 só de juros. Nenhuma outra linha de crédito para pessoa física no Brasil chega perto desse custo: nem o consignado privado (que foi de 40,9% para 57% ao ano), nem o crédito pessoal sem garantia (acima de 140% ao ano). É por isso que o rotativo raramente resolve um aperto pontual. Ele transforma o aperto numa dívida que cresce mais rápido do que qualquer salário consegue acompanhar.

O ponto que Galípolo destacou como mais preocupante é esse descompasso: renda maior e emprego mais fácil de conseguir não estão servindo para quitar dívida antiga. Estão sendo absorvidos pelo padrão de consumo que já existia. É o cartão virando o mês de novo: o salário sobe, o espaço que deveria sobrar é ocupado pela fatura, e o mês seguinte começa exatamente de onde o anterior parou.

O que ainda pode mudar, e o que acompanhar

O alerta de hoje é a antessala de uma mudança de regra, não a mudança em si. Segundo Galípolo, a equipe do BC estuda medidas macroprudenciais, ou seja, regras que miram o sistema financeiro como um todo (quanto capital os bancos precisam reservar para cada tipo de operação de risco), diferentes de mexer na Selic, a taxa básica de juros. A ideia é fazer o custo do crédito refletir melhor o risco de cada operação, para que bancos parem de disputar cliente oferecendo crédito sem garantia e depois transferir esse risco ao resto do sistema.

Dois pontos vale acompanhar daqui para frente:

  • As medidas macroprudenciais do BC: sem prazo definido, mas Galípolo disse esperar "voltar em um ano apresentando boas notícias" sobre elas. Até lá, nenhuma restrição nova está em vigor.
  • Os dois indicadores que o próprio BC citou como termômetro: o comprometimento da renda com cartão (hoje em 54%) e a inadimplência do rotativo (hoje em 64%). Se continuarem subindo nos próximos relatórios trimestrais do BC, a pressão por medidas mais rápidas tende a aumentar.

Conteúdo educativo: este texto não é recomendação de investimento nem substitui orientação financeira individualizada. Avalie sua situação antes de qualquer decisão.

O dinheiro já sabe para onde vai. A questão é se foi você quem decidiu.

Kim Planeja

Dev de dia, aprendiz de finanças na vida real. Kim Planeja viveu por anos no ciclo do mês que vem e decidiu mudar isso — uma planilha, um hábito e um artigo de cada vez.